pai nosso

tributo a j. m. branco

"Porque já foi tudo dito uma vez e ninguém escuta, é preciso dizer de novo."
André Gide

Quarta-feira, Junho 23, 2004

O Homem e a Natureza 

A evolução da Humanidade tem-nos demonstrado que há um desprezo sistemático pela Natureza, essa força criadora e ignorada, tantas vezes sangrada pelo egoísmo mórbido do Homem para quem a tecnologia é tudo, esquecendo e desrespeitando essa força grandiosa. Os atentados constantes contra a lei natural, dão-nos a certeza de uma autodestruição, dum progressivo envelhecimento do Homem em todos os campos, invertendo teimosamente a verdadeira essência do seu existir.
O Homem, ao olvidar a força criadora da Natureza, está a caminhar numa via evolutiva de atrofiamento que pode chegar até ao aniquilamento da própria Humanidade. A renuncia em considerar a Natureza ou a sua marginalização, constitui na verdade uma destruição lenta mas persistente do Homem, dominado pelo seu egoísmo e por interesses apenas muito imediatos. A criatividade natural do Homem está a ser desviada para fins mercantilistas, desvirtuando a beleza e a pureza, tornando-o escravo de si mesmo e duma sociedade que o condiciona, clivando-o conforme os seus interesses e nunca em conformidade com a força purificadora dessa natureza de que é filho.
Lamentavelmente pensamos apenas num futuro próximo, esquecendo o distante, que poderá vir a ser verdadeiramente trágico. Não existem argumentos plausíveis e honestos que justifiquem o engodo criminoso na destruição da Natureza, saqueada em todos os campos, desde a flora à fauna.
O desequilibro a que se assiste neste mundo conturbado é devido à inconsciência ou ao furor do Homem em ultrapassar todas as barreiras, pondo de lado a noção do que é ou não em prol da Humanidade. E é assim que, em pleno limiar do século XXI, continuam a existir a fome, a doença, as guerras e toda a miséria que nós conhecemos.
escrito em março de 1979
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Segunda-feira, Março 15, 2004

Que mundo? Que paz? 

Num mundo conturbado onde as aventuras militares estão na ordem do dia, procura-se a paz não obstante a manutenção de todas as contradições que existem na sociedade.
A paz não poderá continuar a ser um mito, nem sequer uma procura em vão, identificada apenas com aqueles que oferecem a sua paz podre.
Não podem aduzir-se argumentos para impor o que se pretende, enquanto se persistir na exploração moral, física e intelectual dos cérebros vazios de qualquer conteúdo que lhes permite dar-se conta da sua infame condição humana.
O mundo está a tornar-se um antro cada vez mais completo de decadentes e frustrados. Reina a avidez do querer e do poder, transformando o homem numa massa amorfa que acaba por ser ultrapassado, perdendo o controlo dos seus próprios inventos e das próprias leis que o submetem e atrofiam.
Assim, após milénios da existência humana, continuamos à procura daquilo que, na prática, não se deseja.
A angustia e o desespero dominam atrozmente os espíritos. A fragilidade das palavras não basta para esquecer a realidade bem clara de um quotidiano universal, onde o humanismo não passa de uma formula inteligente para ilibar responsabilidades dos ditos humanistas.
As palavras continuam a arrastar multidões, incutindo nelas um respeito e fervor doentio por figuras que se esvaem no rodar da história, ficando como paladinos de virtudes e feitos de sabor bem amargos. A História porém continua a ser feita por aqueles que, não ficando nela, foram e são uma massa inerte de escravos, que um dia se levantarão contra os que falam de paz, mas para manter o seu sistema sacral de opressão e justiça.
em 23.nov.1979
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Quarta-feira, Outubro 15, 2003

Os imorais 

A imoralidade é um mal gerado pela sociedade. Nela campeiam dois tipos distintos de imorais: os de imoralidade respeitável, normalmente engravatada, de alpaca ou trajando pela última moda, e os de imoralidade miserável, destituída de qualquer respeito, descalça, suja, nua. Assim podemos assistir frequentemente à idolatria ou veneração duma respeitabilidade inspiradora e impulsionadora da imoralidade suja mas necessária para encobrir e fomentar os responsáveis desse terrivel mal, que é o esterco ou imundice do virtuosismo dos intocáveis donos da sociedade.
Apontam-se energicamente os defeitos mas continuam a esquecer-se as causas que os geram. Porquê?
Certamente para não pôr em causa toda a respeitabilidade da perversas e veneradas pessoas, acoitadas numa intocabilidade adulada na maior parte das vezes pelas vítimas dessa «moralidade» bizarra e odiosa, onde a peçonha é vomitada, enchendo a sociedade de vermes que contaminam um mundo onde a sujidade moral não é mais do que o retrato da fidelidade. Na verdade há aí um respeito dos vitimados para com aqueles que respeitavelmente devoram principios que deveriam ser relativos a todos e não apenas a alguns eminentes «respeitáveis».
Pensar em aniquilar os imorais é pura utopia, sabendo-se de antemão que a lama não pode ser banida enquanto permanecerem as estruturas desta sociedade encadeada em propósitos alienantes que contudo não poderão, deter a marcha triunfal dos espiritos revoltados.
A indiferença, sancionadora destes defeitos, provém da própria incapacidade daqueles que afirmam combater o que afinal apoiam nas suas mais nefastas e tirânicas atitudes, por vezes bem dramáticas. Enraizadas e empedernidas no mal, estas consciências cultivando a guerra dizem-se defensoras da paz, assim como apregoando moralidade, vegetam na mais promíscua imoralidade, portadora de sementeira daninha. E é assim que aparecem agentes executantes da miséria moral, antecâmara duma imoralidade em que se banham tranquilamente todos os vermes encapotados numa dignidade que lhes permite atacar sem contudo sofrer as consequências de serem os únicos portadores de toda a doença que contamina esta sociedade imunda.
Os homens continuam a ser as peças dum sistema onde tudo se relaciona, tudo menos a imoralidade, quando posta ao serviço da monstruosidade, do crime e da alta finança. Sempre e em qualquer circunstância ela porá cobro a todos aqueles que a não respeitem, na sua inexorável vontade de continuar a fiscalizar um mundo empobrecido. A verdadeira moral não a souberam cultivar e muito menos por isso a poderão fiscalizar.
em 8.jun.1979
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Terça-feira, Outubro 07, 2003

O albardar da liberdade 

Actualmente assiste-se a um crescimento e suspeito surto de insuspeitas pessoas, preocupadas em determinar o que serve e o que não serve os interesses culturais e a salvaguarda das instituições que norteiam os altos valores e a dignificação do Povo.
É evidente a insolência destes acérrimos paladinos da «ordem» e «disciplina», arranjando argumentos para impor a sua vontade de atrofiamento e asfixia, em que seguramente desejam manter o Povo, guiando-o ao sabor dos seus designios e interesses. A arrogância delirante dos retrógados demonstra cabalmente o desespero aflitivo contra tudo aquilo que ultrapasse o essencial que é a sua continua agressão, comentada na exploração da ignorância em que permance mergulhado todo um povo, ingerindo toda a casta de falsidades e mentiras. Pretende-se cavalgar a liberdade, usurpando o que é pertença de todos e não de alguns auto-eleitos, guiados pelo unico fito de anestesiar uma sociedade contaminada pelo vírus da incapacidade e condenada aos vermes portadores de mais ignominiosa opressão.
Estamos no caminho em que o absurdo faz lei e os legisladores da fome e da miséria desejam povoar no esterco este país degradando-o no ódio e na alienação, em vez de procurarem fórmulas sociais que eliminem os males actuais sem criar novos. Os fabricantes da albarda tentam disfarçadamente dar a impressão duma nobreza que apenas é o ridiculo duma máscara, tentando transformá-la em força mística para captar a confiança daqueles que sempre viveram num sistema de coerção.
Levantam-se vozes contra os autênticos cultores de obras onde se retrata algo de novo no panorama depauperado da cultura. Todavia a verborreia grotesca e ignóbil dos falsos legalistas permanece silenciosa e inerte perante toda a obra importada e decadente, onde a premiscuidade mais alienante e entorpecedora se esvai num caudal crescente, adormecendo os espiritos e degradando os verdadeiros sentimentos dum Povo.
Não nos podemos alhear do alarme sensacionalista quando este traz consigo o cunho de esmagar a liberdade que não convém. É urgente que os arrogantes defensores do bem comum se não arroguem em defensores da criatividade do Homem, mas sim que a aceitem e a incentivem, de forma que seja modelada e que se encontre um novo Homem, uma nova sociedade, capaz de enverdar por um caminho mais justo e mais feliz.
em 26.abr.1979
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Terça-feira, Setembro 30, 2003

Os profetas da miséria 

Embebidos dum certo saber alguns homens dum certo país, vomitando ódio incontido, permanecem iguais a si próprios, alheios, indiferentes, incapazes de serem homens de corpo inteiro. Julgam-se ou condenam-se todos aqueles que , fieis a si mesmos, não abdicam de pensar por si, conscientes duma razão não pessoal mas universal.
A fidelidade e o respeito aos procriadores da miséria, parece-nos ser a verdadeira e única via que nos levará inevitavelmente à nossa própria destruição como seres humanos, responsáveis por uma sociedade decadente. Vivemos num mundo de palavras e segredos encobridores de negociatas onde não existem possibilidades de chegarmos, pois a lei marginaliza todo aquele que se oponha e que combata esses profetas da miséria para onde claramente empurram cada vez mais um Povo, também incapaz de se encontrar a si próprio.
Continuam a ser arregimentados os escravos famintos por «conceituados» politicos desejosos de subir ao poder, para depois os manter no silêncio da miséria e da fome. Os escroques da politica, autênticos criminosos, sentem-se senhores dum povo empobrecido cada vez mais de espirito, muito proximo da alienação. A humilhação é uma constante e o desrespeito é considerado uma virtude. A altivez serena dos responsáveis contrasta com o seu pendor para a mentira mais ôca e desprezivel.
A nossa Pátria está a ser saqueada pelo oportunismo mais descarado, firmemente defendido pelos gestores da miséria, sempre prontos a tirar proveito daqueles que são apenas instrumentos válidos quando necessários para os seus almejados fins.
A sangria irá continuar, cada vez com mais furor fazendo a instauração progressiva dum envelhecimento a todos os níveis dum Povo, agarrado a uma ignorância milenária, defendida esta por um tradicionalismo onde o fanatismo criou hábitos que cegam por mais transparentes que se apresentem as vicissitudes por que passa toda uma gente continuamente anestesiada por esta horda impeditiva do progresso e engrandecimento. Os vexados, esperam contudo vislumbrar um novo dia, que jamais chegará se continuarem a acreditar nessas figuras de retórica, sempre prontas a demolir tudo e todos, quando está em causa o seu dominio sobre todos e tudo.
Combatamos firmemente os activistas da miséria e com eles todos os profetas da mesma.
em 20.jul.1979
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Domingo, Setembro 21, 2003

Racionais e irracionais 

O Homem arvora-se hoje em ser racional mas pelo seu comportamento compromete-se seriamente a si próprio dum modo irracional. Ao avanço tecnológico o Homem não tem correspondido, ficando para trás no seu aperfeiçoamento, não acompanhando a evolução, permanecendo ao Homem de milénios atrás, em certos pontos bastante mais primitivo.
A ânsia avassaladora de progresso não é acompanhada racionalmente mas sim por métodos mercantilistas que arrastam o Homem na voragem no tempo e o transformam numa peça estéril duma sociedade em constante degradação. Estamos perante uma situação em que o raciocinio é devorado pelo interesse do Homem. E descurando este a sua perfeição está a caminhar para a irracionabilidade, sendo levado a cometer toda a casta de atropelos e crimes para conseguir os seus fins, por vezes bem dramáticos para a sociedade.
Somos assim levados a interrogar-nos onde começa a racionalidade do Homem e acaba a irracionalidade dos irracionais. Estes são considerados como tais mas se avalizarmos a sua vida e métodos, demonstram tantas vezes uma capacidade de vivência em comum que nos devem fazer pensar seriamente e até invejar o seu «raciocinio».
O Homem não poderá continuar teimosamente a evoluir sem se evoluir a si próprio, pois se assim o fizer irá sendo consumido pela sua própria avidez de ultrapassar barreiras que o levarão a uma destruição progressiva e a um envelhecimento tal que poderá aniquilá-lo. Levado pelo desespero por vezes do absurdo, teima numa evolução destituída de fundamentos válidos e capazes de acompanhar o ritmo desse progresso, sem procurar encontrar-se a si nessa linha progressiva.
É imperioso, para o progresso da sociedade, rever toda a conduta do Homem, procurando na lei natural o seu caminho, pois de contrário será vitima de si próprio e assim continuará este planeta conspurcado pelo ódio, o egoismo e enfim, toda a irracionabilidade em que vivemos.
em 26.Out.1979
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Quinta-feira, Setembro 18, 2003

Os escravos do poder 

A força absorvente do poder transformou o homem, destruindo-lhe as virtudes que até então pareciam inatas e exemplares. O absurdo do poder arrasta logicamente a despersonalização do homem e a sua metamorfose, já que deixa de existir como homem pensante e actuante. Entendo assim a total derrocada da sociedade pela incapacidade de governação do homem pelo homem. O poder, apesar de efémero, é por isso mesmo mais calculista, tornando-se pernicioso pois é normalmente conduzido de forma que a força faz a lei. Quando a força da argumentação, mais ou menos imposta com subtileza, não chega, dá lugar a atitudes despóticas por parte daqueles que não aceitam a legalidade das leis quando elas não lhes servem de pretexto para impor o seu poder ou daquelas camadas que afinal representam.
Temos assim a escravização do homem ao poder que o corrompe e lhe tira toda e qualquer espécie de hombridade. Os homens não poderão esperar pelos Messias do poder, que venha resolver aquilo que, todos sabemos, só poderá ser resolvido por eles próprios, com a luta sagrada e o esforço sublime daqueles que sempre e em todas as gerações têm sido o motor do desenvolvimento neste mundo, comandado teimosamente pelo acaso e intriga.
em 2.Fev.1979
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Os Charlatães 

Os bizarros charlatães, imbuidos de farta demagogia, aparecem perante nós para encobrir o mundo social infecto, tão legitimamente defendidos pelos impotentes e estéreis padrões desta sociedade bacoca.
Temos plena liberdade de escolher de entre os charlatães, aqueles que irão cavalgar um povo anestesiado por mais uma concessão capitalista, legalizadora da decadência indefinida de um sistema social imposto pelos defensores do roubo.
Uma vez mais, infantilidade e alienação conquistadas através dessas místicas figuras de charlatães, levará o nosso Povo a escolher encantado, abutres carregados de saber e de virtudes geniais, capazes de consegui o milagre de tornar os homens mais civilizados, a sociedade mais justa, de debelar enfim os grandes males de que está enferma esta Pátria.
Explora-se a ingenuidade para legitimar a opressão, a depravação e a ordem de represália para todos aqueles que não acatem a prostituição dessa odiosa legalidade ultrajante da dignidade humana. Não há palavras para definir o despudor, a charlatanice de homens obcecados em um Povo que continua forte na dor e incapaz de pensar em si, avalizando a sua miséria, impiedosamente arrastado por farsantes odiosos, para quem os interesses investidos estão acima da dignificação dos Povos.
Tudo se harmoniza para o fortalecimento dum Estado onde a debilidade é incapaz de se manter sem ser por métodos em que a violência é lei, a opressão se torna defensora da liberdade, o cacete o esbeio da paz e o roubo o imposto devido a homens que, em nome duma nação, não têm o direito, nem conhecimento, nem virtude para ser governo.
Combatam-se todos os charlatães que humilham os povos, estagnando as ideias, cavando a sua sepultura, transformando em coisa nenhuma o homem, elemento único para o florescer da Humanidade.
em 07-12-1979

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